Os riscos da politização das práticas sociais que interessam à população

       Abaixo comento uma carta-aberta da Articulação Nacional de Agroecologia - ANA - que reforça a minha preocupação com a ideologização e partidarização - ou mesmo "esquerdização" - de práticas sociais que interessam a toda a sociedade, e não deveriam servir de bandeira  "de luta" para qualquer agrupamento político.
       Aliás, eu já vinha apontando esse "aparelhamento" político-partidário da agroecologia e da agricultura urbana desde o final do ano passado, no texto Agricultura Urbana: "movimento" ou prática social?

       Estou convencido de que a ANA não deveria tomar partido nessa disputa política, por que qualquer governo deve ser nosso parceiro na promoção das práticas sociais que tanto necessitamos.
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Movimento Agroecológico contra o Golpe e em Defesa da Democracia
A Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), formada por organizações da sociedade civil e movimentos sociais com longa trajetória de lutas pela Democracia, repudia com veemência as investidas golpistas contra o governo democraticamente eleito da Presidenta Dilma Rousseff.
  1. A ANA adota o mesmo discurso falacioso do PT ao afirmar que o processo do impeachment é um “golpe”. Não é, pois está previsto na Constituição até para crimes de responsabilidade bem menos desastrosos do que os cometidos por Dilma Rousseff.
  2. Ao chamar um processo legítimo de “golpe”, o PT e seus aliados, como a ANA, conduzem a situação política para a radicalização, por que, se for mesmo golpe, é o caso de a população reagir até com armas na mão...

    O processo de impeachment em curso no Congresso Nacional é capitaneado por parlamentares de parte da oposição em aliança com personagens do poder judiciário que não aceitam a derrota nas urnas e atuam como porta-vozes de grandes corporações do setor financeiro industrial, comercial e midiático.

  3. Certamente – e muito naturalmente – o processo é liderado por parlamentares da oposição.
  4. Mas a ANA inventa ao afirmar que eles estão “em aliança com personagens do poder judiciário”. Quais? Quando? Como?
  5. E por que a ANA diz isso?  Porque o poder judiciário não tem acolhido as teses petistas em defesa do Lula, da Dilma e do próprio partido... Não é ético nem republicano desfazer da justiça por não ter seus interesses contemplados.

    Trata-se, antes de tudo, de um golpe dos patrões contra os direitos arduamente conquistados pelas lutas da classe trabalhadora brasileira.

  6. A verdade é que depois de dois anos de recessão de - 4% ao ano (após um ano onde havíamos crescido 0%, em 2014), e enfrentando a taxa básica de juros de 14,25% ao ano e a inflação beirando os 10% ao ano, os patrões estão fechando os seus negócios e despedindo seus funcionários. Como haver empregos se as empresas estão fechando? Só se virarmos todos funcionários públicos (eterno sonho dos esquerdistas).
  7. E é evidente que para recuperar a economia da catástrofe petista serão necessários sacrifícios de todos, principalmente das classes médias, infelizmente, pois são elas que formam a maior parte da população. Devíamos ter pensado nisso quando elegemos o Lula em 2002, encantados com suas promessas demagógicas.

    Esta ofensiva reacionária tem alimentado uma cultura de ódio capaz até mesmo de se valer sistematicamente de discursos sexistas na tentativa de desqualificar a Presidenta Dilma.

  8. A ofensiva reacionária cresceu quando parcelas crescentes da sociedade percebeu, nas manifestações de junho de 2013, que os governos petistas estavam nos levando para o desastre econômico e para a desmoralização ética.
  9. Lembrem-se de que, quando Lula foi eleito, a sociedade o recebeu com simpatia e esperança. Foram a sua megalomania e os sucessivos escândalos nas esferas governamentais e federais que alimentaram a imensa reação contra tudo que lembre “esquerdismo” hoje no Brasil.
  10. Os petistas reclamam que são objeto do “ódio” de seus opositores, mas não se trata de ódio, mas de repulsa, rejeição, nojo, asco, revolta, por causa dos erros e crimes cometidos pelo partido, incapaz de fazer uma autocrítica. Eles preferem dizer que se trata de "ódio" para tentar despertar simpatia na sociedade, mas não está adiantando.
  11. A ANA insinuar que há um elemento sexista, machista, nas críticas feitas à presidente Dilma é apelar demais para a ignorância.
  12. Então a ANA acha que se fosse um homem que tivesse cometido as mesmas irresponsabilidades na condução do país, não estaria agora sendo criticado e tendo o seu impeachment processado?
  13. Ou então, se a Dilma tivesse feito um bom governo, promovendo melhores condições de vida num quadro socioambiental sustentável, mesmo assim ela estaria sendo criticada e enfrentando o impeachment, só por ser mulher?

    Seria cômico se não fosse trágico que Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, acusado por vários crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, réu em processo que tramita no STF, acompanhado por 37 deputados integrantes da comissão especial do impeachment também acusados dos mais variados crimes julguem a Presidenta Dilma, sobre a qual não pesa nenhuma acusação de crime de responsabilidade.

  14. O Eduardo Cunha e muitos deputados e senadores – da base de apoio do governo e da oposição – estão sendo processados por diversos crimes, e toda a sociedade espera que sejam cassados,  processados e presos em breve.
  15. Mas no momento o que está em pauta é o impeachment da presidente, questão muito mais importante e decisiva para o futuro do país. É preciso ter prioridade; primeiro o executivo federal, depois o legislativo federal, depois o executivo estadual e os legislativos estaduais etc. Querer processar e prender todo mundo ao mesmo tempo (ou então que não se prenda ninguém....) é uma maneira de não querer processar e prender ninguém.
  16. Quando a ANA diz que “sobre a qual não pesa nenhuma acusação de crime de responsabilidade” está mentindo explicitamente, e sendo culpada de agir de forma infame, pois conscientemente deseducativa, conduzindo quem a lê ao erro.
  17. Não acredito que a ANA não saiba que o processo de impeachment se baseia numa denúncia de “crime de responsabilidade” encaminhada ao Congresso por três juristas, e depois analisada no longo relatório do deputado Josair Arantes, que votou por sua aprovação. Depois o relatório foi aprovado pela comissão especial formada por 80 deputados e amanhã será votado pelo plenário da Câmara dos Deputados.
  18. O deputado Cunha é só um detalhe, pois pouco pode pessoalmente diante dos outros 512 deputados. Se não fosse ele, seria um outro deputado a presidir o processo do impeachment.

    Impeachment sem crime de responsabilidade é golpe!!!

  19. Isso é óbvio, ninguém discute... O problema é a ANA - como faz o PT - querer negar o que está sendo aceito como legítimo e normal nas várias instâncias que lidam institucionalmente com o caso do impeachment: a Câmara e o Supremo Tribunal Federal.
  20. Na verdade a ANA e o PT estão nos sugerindo que desconsideremos o sistema jurídico brasileiro e, portanto, a própria Constituição - que o define e as suas atribuições.  Isso sim é que é golpe contra o ordenamento republicano...

    Essa manobra política ilegítima ameaça a nossa jovem democracia, fere a Constituição Brasileira e desrespeita o voto de mais de 54 milhões de brasileiros e brasileiras que elegeram a Presidenta Dilma Rousseff.

  21. Quem pode declarar como ilegítima a “manobra política” é a própria Câmara e principalmente o STF; não os petistas e seus simpatizantes, nem o Lula nem a Dilma - todos com evidentes conflitos de interesse.
  22. Quanto ao fato de a presidente ter sido eleita com 54 milhões de votos, é preciso lembrar à ANA que o impeachment só está previsto na Constituição para o caso de mandatários legitimamente eleitos, desde que tenham cometido crimes de responsabilidade... O instrumento não está previsto na Constituição para o caso de governantes "ilegitimamente" eleitos...
  23. E os 54 milhões de votos da Dilma representam apenas 38% do eleitorado que votou no 2º. turno da eleição de 2014... Os demais 62% dividiram-se entre Aécio, votos nulos, em branco e abstenções.
  24. Os 38% de apoio que a Dilma teve em 2014 (hoje seria bem menos) não lhe deram o direito de nos impor sua ideologia irresponsável e infelicitar a vida de toda sociedade brasileira - que, em sua maioria, nunca a apoiou.

    Temos manifestado nossas críticas ao governo Dilma pelo fato dele ter se distanciado de propostas cruciais anunciadas na campanha eleitoral.

  25. As “propostas cruciais anunciadas na campanha eleitoral” eram mera propaganda enganosa, promessas impossíveis de serem cumpridas, ainda mais já no quadro de deterioração das contas públicas, que ela então escondia dos eleitores.
  26. Se fosse possível, bem que ela gostaria de realizar suas promessas irrealizáveis. Não é questão de "querer"...
  27. Mas só votou nela quem queria se deixar iludir, em geral por motivos pessoais ou ideológicos, nunca técnicos ou racionais.

    Além de não avançar em inadiáveis reformas estruturais, como a agrária e a urbana, colocou em prática uma política econômica que garante fartos recursos para o capital financeiro em detrimento de políticas garantidoras de direitos, como os programas de convivência com o semiárido, a política de assistência técnica e extensão rural e o programa de aquisição de alimentos da agricultura familiar, para citar alguns exemplos.

  28. De fato, o desequilíbrio das contas públicas, causado por uma sucessão de decisões equivocadas (para dizer o mínimo), levou o Brasil a ter que aumentar brutal e prolongadamente a taxa básica de juros para conseguir recursos emprestados para financiar o déficit público PRIMÁRIO (33 bilhões de DÓLARES em 2015).
  29. Quanto mais desequilibrada a economia, quanto mais deficitário é o governo, maior a necessidade de tomar dinheiro emprestado a juros cada vez mais altos.
  30. A Dilma conseguiu, em apenas um ano (2015) aumentar a nossa dívida pública em estonteantes VINTE e UM POR CENTO, alcançando agora alucinantes 900 bilhões de DÓLARES.
  31. Esse é o desastre que Dilma provocou, e que custará inevitáveis sacrifícios de nós todos (conforme o comentário 7, acima).

    Em que pesem essas críticas, reconhecemos que os governos Lula e Dilma implementaram políticas direcionadas às parcelas mais empobrecidas da população, historicamente excluídas das ações do Estado brasileiro.

  32. Não se pode dizer que as parcelas mais empobrecidas eram historicamente excluídas das ações do Estado brasileiro. Várias políticas públicas vinham sendo implementadas pelos governos federal e estaduais anteriores, como as próprias bolsas sociais, que o Lula sempre quis usurpar como criação sua. A universalização da educação básica, o Sistema Único de Saúde, o Instituto Nacional de Seguridade Social também foram esforços significativos para incluir os brasileiros mais pobres na cidadania.
  33. Esse mito de que antes do Lula ninguém cuidava dos mais pobres faz parte do culto à personalidade praticado pelo PT e sua militância – duas características de partidos com viés totalitário.
  34. Além disso, o mais grave foi que nesses anos a produtividade do Brasil "decresceu" em comparação com os países avançados, caindo de 2 vezes menos produtivo, na década de 1980, para 3 vezes menos produtivo conforme pesquisa do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, do Ministério da Fazenda) e da SAE (Secretaria de Assuntos Estratégicos, da presidência da República) publicada em abril de 2014. Em comparação com a Alemanha e Coreia do Sul, o estudo concluiu que somos quatro vezes menos produtivos, e com relação aos EUA, cinco vezes... E hoje, 2016, estou certo de que esse índice despencou ainda mais... Como pode a população estar enriquecendo, a pobreza reduzindo, se a produtividade está caindo???
  35. Também é bom lembrar que os financiamentos subsidiados, as renúncias fiscais e os desvios da corrupção ocorridos nos governos Lula e Dilma transferiram para as contas bancárias de lideranças petistas, políticos da base aliada, empreiteiros, banqueiros e megaempresários muito mais recursos do que os programas de transferência de renda para os mais pobres.

    Destacamos a criação, no governo Dilma, da Politica Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica como fruto de um amplo processo de debate democrático com a sociedade civil, que foi capaz de formular propostas voltadas à promoção da segurança alimentar e nutricional como, por exemplo, o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos.


  36. Enquanto os governos petistas davam um pequeno espaço aos jovens agroecológicos – para formularem políticas que não terão a menor prioridade no governo – abria-se o Brasil para os transgênicos, entregava-se o ministério da Agricultura para a líder máxima dos ruralistas, e liberava-se e ampliava-se o uso de agrotóxicos cada vez mais danosos.
  37. Às vezes tenho a impressão de que a ANA apoia a Dilma por causa dessas pequenas vitórias insignificantes diante da inércia do governo de promover verdadeiras mudanças nas mentalidades e nas práticas predominantes na sociedade brasileira.
  38. Estaria a ANA se vendendo por tão pouco, abrindo mão de se opor aos erros e crimes cometidos contra toda a nação brasileira só por causa de um espaço mínimo conquistado na máquina governamental e do acesso a verbas irrisórias perto do que foi “investido” em desvios e corrupção?

    Para levar a frente a agenda da agroecologia como parte de uma estratégia de democratização e sustentabilidade da sociedade brasileira, nos posicionamos e nos mobilizamos no segundo turno das eleições presidenciais, em 2014, em defesa da candidatura de Dilma.

  39. A ANA acha normal ter se posicionado e mobilizado em defesa da candidatura da Dilma, em 2014....
  40. Nunca fez uma autocrítica nem pediu desculpa por ter aconselhado seus associados a votar na representante de um partido que já estava denunciado como “organização criminosa” em pareceres de juízes do STF e do procurador-geral da República, e já denunciada entre os responsáveis pelas perdas bilionárias da Petrobras (da qual era presidente do Conselho de Administração).
  41. Se a Dilma só foi apoiada por 38% da população (e hoje esse apoio seria ainda menor), será que todos os agroecologistas que a ANA pretende representar apoiam a Dilma???  Não acredito!!!
  42. A ANA desconhece que essa agenda de agroecologia, agricultura urbana, sistemas agroalimentares urbano-regionais sustentáveis não é monopólio de movimentos esquerdistas, nem foi inventada por ela.
  43. Pelo contrário, é nos países avançados que essa agenda está sendo mais seriamente adotada, e é de lá que vem o estímulo para que os países pobres também a adotem.

    Lutaremos para que o criminoso processo de impeachment seja derrotado.Daremos nossa contribuição para, mais uma vez, demonstrar que as forças democráticas da sociedade brasileira estão vivas e que sabem de que lado se posicionar nesse momento crítico da história nacional.


  44. Uma Articulação Nacional de qualquer coisa não pode chamar de “criminoso” um processo que está legitimamente em andamento na Câmara dos Deputados do Brasil, sob permanente monitoramento do Supremo Tribunal Federal.
  45. Só por que o processo vai numa direção que a ANA não aprecia, isso não é motivo para chamá-lo de “criminoso”.  Fazer isso é apostar na ruptura institucional, e – no limite – na guerra civil.
  46. A ANA está sendo preconceituosa quando considera que as “forças democráticas” são exclusivamente as que se opõem ao impeachment, esquecendo-se de que esse recurso existe justamente para proteger, dos maus governantes, a nossa frágil democracia. 
  47. Como pode a ANA saber se os opositores à Dilma também não representam – ao menos igualmente – forças democráticas? Será que seus dirigentes são mais democráticos do que eu?  Quanta pretensão...

    Exigimos respeito pelo voto popular!

  48. Ter sido eleita pelo voto  popular (ainda que de apenas 38% do eleitorado) não dá à Dilma o direito de cometer crimes de responsabilidade fiscal que resultaram numa crise sem final previsível.

    Em Defesa da Democracia! Pela Agroecologia!

  49. Ok. Por que não?  Vamos deixar essas frases sem comentar...

    Não vai ter Golpe! Vai ter Luta!


  50. A palavra-de-ordem que os petistas e simpatizantes adotaram “Não vai ter golpe” é uma incoerência inútil, pois de fato o que está acontecendo é um processo legítimo, que corre na Câmara dos Deputados devidamente monitorado pelo STF.
  51. Chamar de “golpe” um processo político legítimo é um desserviço às instituições democráticas, pois tenta desmoralizá-las como “golpistas” e busca elevar o PT para um nível acima da Lei.
  52. Além disso, essa atitude é antieducativa (o que é intolerável), pois induz as pessoas mais modestas intelectualmente a conclusões erradas no momento histórico e crítico que vive o Brasil.
  53. Mais do que isso, essa tática de “Vai ter Luta!” (adotada até mesmo pela Dilma) é uma ameaça à sociedade, pois insinua que os petistas e simpatizantes não vão aceitar o resultado do processo e irão “para as ruas” intimidar a população e acuar o judiciário.
  54. Aliás, “agroecologia”, como também a ecologia, não tem nada a ver com lutar contra alguém. Nossa esperança é educar as pessoas, conscientizar a população sobre seus problemas; não lutar contra elas.
  55. O fato de eu trabalhar voluntariamente por essa conscientização agroecológica há 40 anos, investindo meu tempo e dinheiro para ajudar o país, me deixa muito sensibilizado quando vejo pessoas ganhando MILHÕES de reais em “consultorias” e “palestras” fictícias, como fizeram o Lula, o José Dirceu, o Antonio Palocci e o Fernando Pimentel (próceres máximos do PT).
  56. Mas o maior erro desse documento da ANA é identificar o movimento agroecológico com uma ideologia, que tem seus adeptos mas que tem um número imensamente maior de opositores.
  57. A agroecologia e os novos sistemas alimentares urbano-regionais são do interesse da população, e portanto o nosso trabalho é educar a sociedade e promover as novas práticas sociais, e não promover a revolução dos mais pobres contra os mais ricos.
  58. Esta orientação da ANA – de se identificar com um grupo político desmoralizado e com uma ideologia rejeitada pela sociedade – só dificulta a difusão das práticas agroecológicas e a sua adoção por governos de outras vertentes políticas (a maioria).